
Diretores do Sindireceita e representantes da OCDE, do Ministério do Planejamento e do Banco Mundial fizeram uma avaliação das políticas da RH no serviço público
O Sindireceita foi a entidade sindical escolhida para representar os servidores da carreira de Auditoria da Receita Federal no encontro sobre política de recursos humanos do governo federal com a missão da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). No encontro realizado ontem (2) na Escola Nacional de Administração Pública (Enap), em Brasília (DF), o presidente do Sindireceita, Paulo Antenor de Oliveira, destacou que um dos principais problemas do serviço público brasileiro é a fragmentação de carreiras, o que fragiliza o funcionalismo e gera ineficiência na prestação de serviços ao cidadão.
Destacando o exemplo da Receita Federal do Brasil, Antenor defendeu a possibilidade de promoção funcional como solução para problemas internos e para melhoria na eficiência do órgão. Segundo ele, o modelo atual, com dois cargos, que não se comunicam, em uma mesma carreira, gera perdas ao governo e à sociedade. Ele também ressaltou que é necessário definir as atribuições dos servidores. “Situações como essas levam a graves conflitos internos com repercussões para toda a sociedade. Podemos citar vários exemplos, mas para se ter uma ideia, enquanto o País sofre com constantes quedas na arrecadação de impostos, somente em créditos tributários em processos fiscais a Receita Federal tem um estoque de R$ 430 bilhões. A análise desses créditos poderia ser feita por Analistas-Tributários, mas por decisão da administração apenas auditores podem efetuar essa função, que na prática não é executada”, disse.
Paulo Antenor também destacou que com a possibilidade de promoção funcional o Estado e a sociedade seriam beneficiados. O presidente do Sindireceita acredita que, ao invés de abrir concurso para contratação de um novo servidor, sem nenhuma experiência para ocupar a classe inicial de um dos cargos, o governo poderia instituir um sistema de avaliação interna, privilegiando o mérito e permitindo que aqueles que fossem evoluindo na carreira, e com a experiência adquirida ao longo dos anos, ocupassem esses espaços. Já o ingresso do novo servidor se daria na classe inicial da carreira e não do cargo, como é hoje. “O que temos atualmente é um Estado desembolsando mais de R$ 12 mil para ensinar um servidor recém aprovado em concurso a trabalhar. No caso da Receita Federal, o novo servidor demora entre 3 e 5 anos para conhecer a realidade de trabalho da instituição. Portanto, o modelo atual traz implicações para todos”, disse.
A representante da OCDE e consultora sênior da Câmara da Secretaria do Tesouro do Canadá, Tatyana Teplova, explicou que em seu país existe um sistema de promoção funcional, que permite ao servidor evoluir dentro da carreira, por meio de avaliações que tem como princípio o mérito. Ainda de acordo com o representante do Banco Mundial, Jeffrey Rinne, no histórico de pesquisas da OCDE há uma ampla gama de soluções para conflitos desta natureza e a base das relações democráticas, entre os servidores e o estado, está na avaliação por mérito.
A missão da OCDE que está no Brasil é formada por consultores de vários países e também conta com representantes de outros órgãos internacionais como Banco Mundial. A pesquisa sobre a gestão da política de Recursos Humanos no Brasil está sendo feita com representantes dos servidores e de órgãos do governo. Além dos problemas da administração pública federal, os integrantes da missão também vieram ao País para conhecer o trabalho realizado pelo Ministério do Planejamento (MPOG), em especial, os resultados da Mesa Nacional de Negociação Permanente (MNNP). Na reunião realizada ontem, o Sindireceita também foi representado pelo presidente do Conselho Nacional de Representantes Estaduais (CNRE), Gerônimo Sartori, pelo ex-vice-presidente da DEN, Jether Abrantes e pelo diretor de Defesa Profissional e Estudos Técnicos, Rodrigo Thompson.
MNNP
Na opinião do presidente do Sindireceita, a MNNP inaugurou uma nova forma de diálogo entre servidores e governo. Segundo ele, apesar das deficiências ainda existentes é preciso admitir que hoje o diálogo é constante. “Os dois lados precisam evoluir. Com a criação e o desenvolvimento da MNNP as partes foram colocadas em cheque. Não estávamos acostumados com essa abertura, o que forçou mudanças que ainda não foram totalmente concretizadas. Precisamos também destacar que o governo, apesar de priorizar a negociação com centrais e federações, teve a sensibilidade de entender que era preciso trazer para a Mesa os sindicalistas que representam legitimamente suas categorias, como é o caso do Sindireceita que tem uma postura independente”, disse. Antenor ressaltou que apesar da evolução no relacionamento com o Ministério do Planejamento, outros ministérios e órgãos de governo não têm a mesma visão e disposição para o diálogo. “Temos mais facilidade e acesso para discutir as questões da categoria no Planejamento do que com a Receita Federal ou a Fazenda”, criticou.
A diretora do Departamento de Relações de Trabalho da Secretaria de Recursos Humanos do Ministério do Planejamento, Maria Gabriela El Bayeh, fez um histórico das relações sindicais no País e da criação da Mesa Nacional de Negociação Permanente. Ao falar da dinâmica de trabalho na MNNP, ela destacou as dificuldades envolvidas no processo de negociação com os mais de 400 sindicatos existentes no País e da preferência do governo em tratar com as centrais sindicais e confederações. “Criamos um instrumento poderoso para mediar conflitos. Antes, os servidores entravam em greve para abrir negociação. Em linhas gerais, não existe mais a greve pré-diálogo, mas sim a greve como último mecanismo diante de um impasse”, analisou. Ela lembrou que o outro desafio enfrentado foi fazer o Congresso Nacional entender que os acordos que foram encaminhados para votação já estavam fechados e que, portanto, deveriam ser cumpridos pelo governo e sindicatos, em uma referência à tentativa de alteração em plenário das propostas que haviam sido negociadas na Mesa. “No início tivemos sérias dificuldades para estabelecermos um canal efetivo de diálogo, até mesmo pela complexidade da conjuntura, mas finalmente conseguimos avançar” , destacou.